Cronoterapia: a relação entre relógio biológico e a eficácia dos medicamentos

No meio científico, muito se discute sobre como aumentar a eficácia dos medicamentos. Seja para tratar dores ou combater bactérias, qualquer tipo de remédio tem uma taxa de eficácia e estudos têm mostrado que boa parte de seu poder terapêutico não depende apenas do princípio ativo do medicamento.

Muitos de nós acreditamos que os efeitos que esperamos dos remédios se dá unicamente pelo próprio medicamento, no entanto, existe uma prática que vem sendo utilizada para aumentar a eficácia dos tratamentos médicos. Esta prática é a cronoterapia, e consiste em administrar os remédios em horários determinados em função do relógio biológico de cada paciente.

Relógio biológico

Para compreendermos melhor como funciona a cronoterapia, precisamos, em primeiro lugar, entender o que é esse tal relógio biológico do qual tanto ouvimos falar.

Todos os seres vivos possuem um ciclo natural de atividade e descanso e esse ciclo pode variar entre 23 e 26 horas e determina toda a atividade fisiológica do organismo. Nós seres humanos também possuímos este relógio interno, que em nosso caso dura aproximadamente 24 horas e 18 minutos.

Ciclo_circadiano
Esquema simples do relógio biológico

Em estudos com Arabidopsis (gênero de plantas), foi observado que o ciclo circadiano, como também é chamado o relógio biológico, é regulado pela luz. Isto foi descoberto após observar que, ao amanhecer, a luz ativava a liberação das proteínas LHY e CCA1, que são responsáveis por estimular genes que são ativados durante o dia. E vale lembrar que estas proteínas também atuam inibindo genes que são ativados durante a noite.

No caso dos humanos, não é muito diferente. A luz do dia é responsável pela liberação de hormônios e expressão de determinados genes. A temperatura corporal, por exemplo, é ajustada de acordo com a luz: quando escurece e se aproxima da hora de dormir, a temperatura corporal é reduzida. Já quando amanhece, volta a aumentar.

Ciclo circadiano e o efeito dos medicamentos

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Agora você deve estar se perguntando: o que tem a ver o relógio biológico com o efeito dos medicamentos?

Bom, muita coisa. Vamos entender melhor a relação entre os dois.

Como visto acima, o relógio biológico regula nossa atividade biológica, incluindo liberação de hormônios e diversas outras substâncias em nosso organismo. Além disso, sabemos que cada remédio necessita de certas condições fisiológicas para ser absorvido e fazer o efeito esperado.

Vamos pensar juntos: já que há substâncias que são liberadas e outras ativadas de acordo com nosso relógio interno e a absorção dos medicamentos depende de certas substâncias para cumprirem sua rota em nosso organismo e atingir o efeito esperado, deve haver uma maneira de conciliar os dois para obter o melhor resultado possível de um remédio.

É exatamente isto o que a cronoterapia, denominada pela Revista Nature como o ingrediente secreto da medicina, afirma: sincronizar a administração dos medicamentos com o relógio interno de cada paciente deve potencializar os efeitos terapêuticos e até mesmo reduzir os efeitos colaterais da droga.

Um desafio para a medicina

Poucas pessoas nunca precisaram passar por uma consulta médica ou não tiveram alguns remédios receitados para tratar alguma doença, seja uma gripe ou algo mais grave. Com essa experiência rotineira, nós sabemos que em uma receita sempre há o nome do medicamento, dosagem e o intervalo de tempo entre as doses, mas será que também não importa o horário no qual se deve tomar o remédio?

Afinal, como vimos há pouco, quando sincronizamos a dose do remédio com nosso ciclo circadiano, podemos potencializar seus efeitos esperados e reduzir os efeitos adversos. Mas há um porém. A medicina atual ainda precisa evoluir para adotar a cronoterapia na clínica cotidiana. Isto porque será necessário um esforço maior dos profissionais para estudarem cada paciente a fim de compreender seu relógio biológico e determinar o horário que cada medicamento deverá ser administrado.

Para os grandes hospitais, principalmente os privados, este não deve ser um obstáculo tão difícil de ser superado. Mas quando se trata de unidades públicas de saúde, lotadas de pacientes e com pouco tempo e recursos para atendê-los, a adoção da cronoterapia no dia-a-dia das consultas se torna um objetivo distante, visto que cada consulta demandará de mais tempo e mais recursos do hospital ou clínica.

Talvez, uma solução viável à longo prazo seja a criação de um cadastro, digamos globalizado, que inclua informações do ciclo circadiano de cada paciente, de modo que, futuramente, ao precisar de uma nova consulta, não seja necessário gastar tempo coletando informações sobre o mesmo. Desta forma, o processo seria agilizado e a prática poderia ser aplicada sem muitos esforços.

Além disso, é importante que as pesquisas sobre o tema continuem sendo desenvolvidas e que as pessoas também tomem consciência do mesmo, pois de nada adianta aplicar tais conhecimentos com o objetivo de melhorar os tratamentos médicos se os próprios pacientes não entenderem de fato o propósito da cronoterapia.

REFERÊNCIAS:

O que é relógio biológico?

http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI314453-17579,00-ENTENDA+COMO+FUNCIONA+SEU+RELOGIO+BIOLOGICO+E+VIVA+MELHOR.html

https://www.ucs.br/site/revista-ucs/revista-ucs-15a-edicao/no-ritmo-do-relogio-biologico/

https://www.nature.com/articles/d41586-018-04600-8

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